Arquivo do mês: novembro 2015

Mensagem da Diretora Geral da UNESCO para o Dia da Filosofia

Dia Mundial da Filosofia 2015

Mensagem de Irina Bokova, Directora-Geral da UNESCO

A convicção de que a filosofia pode trazer um contributo essencial para o bem-estar da humanidade, esclarecer os desafios complexos e fazer progredir a paz está no centro do Dia Mundial da Filosofia.

Uma vez, o historiador Henry Brooks Adams disse ironicamente «Filosofia: respostas ininteligíveis para problemas insolúveis».

Ao contrário, a UNESCO considera a filosofia como um vector de emancipação individual e colectiva. Porque pensar ao mesmo tempo que se reflecte sobre o facto de pensar, é filosofar, e nós fazemo-lo constantemente, movidos pelo motor mais espontâneo do engenho humano, a saber, o espanto.

A filosofia é o diálogo suscitado por este espanto, tecido ao longo dos tempos com a arte e a literatura, que anima os debates consagrados aos desafios sociais e políticos, e que é praticado por todos, sem formação especializada, bem para lá das salas de aula.

Esta é a mensagem da UNESCO hoje: devemos celebrar alto e bom som os méritos da filosofia, a fim de despertar o interesse de cada mulher e de cada homem e sobretudo de cada rapariga e de cada rapaz. Devemos dar a conhecer, em grande escala e de diferentes modos, as maravilhas da filosofia.

Este mesmo é também o objectivo da cátedra UNESCO sobre a prática da filosofia com crianças que acaba de ser criada na Universidade de Nantes (França), fruto de uma cooperação de longa data entre a UNESCO e as redes de professores de filosofia.

Nós trabalhamos no sentido de conseguir que a filosofia, a mais antiga das disciplinas, chegue a um público cada vez mais amplo graças às tecnologias de ponta, por exemplo ferramentas de ensino através da Internet, inspiradas no “Manual de filosofia: uma perspectiva Sul-Sul da UNESCO (2025).

Este ano, todas as actividades de celebração do Dia Mundial da Filosofia colocarão pela primeira vez o acento na utilização das novas tecnologias da comunicação para suscitar o interesse do público por todo o mundo.

Em Setembro, os dirigentes de todos os países adoptaram o Programa de desenvolvimento sustentável no horizonte de 2030, que definiu perspectivas novas para as populações, em matéria de prosperidade e paz, e para o planeta.

Para que este programa possa dar frutos, será necessário mobilizar todas as competências associadas à filosofia – rigor, criatividade e pensamento crítico. A sustentabilidade exige que repensemos a relação que nós mantemos com o planeta. Deveremos adoptar novos modos de acção, de produção e de comportamento. Para isso, a filosofia e o conjunto das ciências humanas terão um papel essencial a desempenhar.

A UNESCO foi criada há 70 anos num mundo em reconstrução após uma guerra devastadora, na base duma nova concepção da paz ao serviço da solidariedade intelectual e moral dos povos. A filosofia sempre esteve no centro do mandato da Organização, com o objectivo de oferecer a cada mulher e a cada homem a ocasião de se descobrir e de descobrir os outros, de compreender as transformações e de tirar partido delas a fim de tornar possível um futuro melhor para todos.

Mahatma Gandhi disse um dia: «Toda a nossa filosofia é seca como o pó se não se traduzir imediatamente em acto vivo de serviço».

Esta tem sido sempre a mensagem da UNESCO, e nunca foi tão importante como hoje.

Irina Bokova,

Directora-Geral da UNESCO

(Trad. José Alves Jana)

 

 

 

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

DIA DA FILOSOFIA

A Filosofia, como tudo o que é mais importante, apresenta-se sob diversas formas. A mais visível é talvez a figura dos grandes filósofos, de que Platão e Aristóteles são duas traves mestras. Outra das formas, a mais pesada, é a filosofia escolar, no secundário e no superior, com tudo o que implica de exigências académicas. Uma outra forma, a mais difusa, é a presença da filosofia por dentro do tecido social, a configurar as nossas formas de vida e a orientar as nossas decisões pessoais e colectivas. É desta última das suas presenças que nos vem muito daquilo que somos. A verdade, porém, é que andamos desorientados entre o que somos e o que queremos ser. Se Deus morreu e a realidade perdeu o seu poder de referente objectivo absoluto, então, onde estamos? e para onde vamos?

Basta olhar à volta, para nos darmos conta de que nos encontramos numa série, para nós quase infinita, de encruzilhadas. Decisivas, ainda por cima. Mas todas elas incertas.

E se é verdade que a filosofia que nos tece por dentro do tecido social nunca deixou de ser problemática, também é verdade que a sua presença activa sob a forma de reflexão – pessoal e colectiva – não tem tido um lugar suficiente. Apesar de se multiplicarem os lugares e as organizações que dão à filosofia um papel activo e que chamam a filosofia a participar, com os outros saberes disciplinares, na tarefa de refazer o mundo e as rotas de futuro.

A filosofia com crianças, o café filosófico, o aconselhamento filosófico, a oficina temática, o retiro filosófico, a caminhada filosófica, o programa radiofónico de natureza filosófica… são apenas algumas das formas de presença activa da filosofia na cidade dos homens e mulheres que somos, hoje. Mas não são suficientes para darmos boa conta da tarefa urgente de dar novo sentido aos problemas e orientar a nossa acção comum.

Neste Dia da Filosofia, em 2015, é importante darmo-nos conta de que temos problemas de monta a resolver e de que precisamos de decidir para onde queremos ir.

 

O terrorismo internacional e o desafio dos refugiados, a ameaça das alterações climáticas, a progressiva concentração da riqueza nas mãos de muito poucos e a condenação de milhões de pessoas a uma pobreza de que nunca poderão sair pelos próprios meios, o desafio de um desenvolvimento que seja durável em alternativa a um crescimento que delapida os recursos não renováveis, o clima de crispação e de intolerância que tem vindo a crescer, a crise dos sistemas de segurança que garantiam às pessoas singulares alguma tranquilidade no futuro, os crescentes problemas de saúde resultantes quer da abundância relativa quer do progressivo envelhecimento das populações, …

Em Portugal, a reconstrução de uma saída para a crise política actual, a reconquista de um lugar viável e digno entre as nações da Europa e do mundo, a recuperação de todos quantos se perderam na crise económica e social por que ainda estamos a passar, a reconstrução de um sistema de ensino capaz de enfrentar com sucesso os desafios dos novos tempos, a redescoberta de uma saída económica e social para o interior em progressiva perda de vitalidade…

Nas organizações em que trabalhamos, nas famílias de que somos parte e na nossas vida pessoal, precisamos de decidir o que fazer, o que vale mais e menos, o que deve ser bem preservado e o que pode ou deve ser abandonado, como somos justos e felizes, inteiros e tolerantes, criativos e respeitadores e assim sucessivamente.

Alguém pode dizer que a filosofia não tem uma palavra a dizer em todos e cada um destes desafios? Alguém pode defender que em cada um destes problemas a filosofia pode ser dispensada de participar na procura das necessárias soluções?

Muitos são os recursos filosóficos de que podemos dispor, muitos são os novos desafios que é necessário enfrentar com uma reflexão renovada. Por isso, muitas têm de ser as formas de estar filosoficamente presente e activo nos lugares e nos momentos em que os problemas são reflectidos e decididos. E é necessário refrescar a imagem pesada, por vezes mesmo bafienta, que da filosofia se foi dando ao longo dos anos. Da filosofia de que nada se espera, cabe-nos fazer o trânsito para uma filosofia com que se pode contar e com que se conta de facto. Essa é uma tarefa cuja responsabilidade cabe sobretudo a quem tem nas mãos o trabalho profissional da filosofia como disciplina e como prática.

O ano de 2015 é, como qualquer outro, um ano decisivo. Mas este é aquele que agora nos é dado viver neste cruzamento histórico em que nos encontramos. Hoje é o dia, esta é a hora, em que todos somos chamados a participar desta aventura de estarmos vivos, uns com os outros, nas nossas diferenças mas sobretudo naquilo que nos une e que é muito. A filosofia é, hoje como ontem, chamada a ter um papel activo na reconstrução de uma saída deste labirinto em que nos encontramos. E a nós – a cada um de nós – cabe participar deste processo com as ferramentas que temos e que, sempre, é preciso aprimorar.

 

José Alves Jana

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized